10:15 / Postado por Ponto Dança / registros de intercâmbios (1)


Antes, um quê de se enquadrar às minhas ideias de dança e as danças dos outros. Antes era algo que o meu corpo em si era pedido que existisse em massa, em carne, em feitos. Como o meu tempo pessoal é lento, ele foi passando e eu não me decidia. Mas a preocupação de tantos que me diziam, me alertaram:

- Maurileni, você tem que concluir! Você tem que dançar! Fala com a Thati... Fala com o Breno... Fala com o Paulo...
Eu falei. Fui recebida de braços abertos, porém parecia que o 'estágio', aquelas cargas horárias de paixão e dedicamento me empurravam para um outro local de pertencimento. Levava-me a aqueles preenchimentos de vazios cheios de possibilidades. Aflita, era necessário que eu agisse. E eu agi. Da minha maneira sorrateira, de um estar com muitos preservando o Eu comigo. Ouvi.
- Escreve sobre os trabalhos coreográficos, conversa com quem está criando, mapeia corpografias, adentra naquilo que é, talvez, por potência, o impenetrável: a criação.
Fiquei desesperada; alegre, portanto.
Agora era só ver um por um, um por um e anotar, passar para palavras, coisas que dão sentidos/nomes/signos/símbolos, a sua percepção.
Corri.
Afundei-me em todos os cadernos de anotações, desde o primeiro, àquele que começamos com a Thereza Rocha, que ela nos tirava do lugar comum fazendo-nos perguntas que nem tem respostas.
Escolhemos compartilhar um ano e meio juntos; momentos de expansão, de recolhimento, de olhos fixos no horizonte, que era ali, bem pertinho, a nossa frente, o vasculhar o corpo do outro, provocar dança, perceber como nos movimentamos, compreender os limites da dança que é nossa.
O medo, a cautela, o ser espiã Russa, algo que vem de dentro, do bôlo de iguais-diferentes e trazer para você, que agora nos ler, só a pontinha daquilo que éramos, daquilo que somos, daquilo que vamos ser. Juntos. Uma dança. Uma permanência. Uma impermanência urbana. Vagante. Sem contêiners, de corpo aberto para as possibilidades, para o devir ser.
- Estamos devindo, devindo, devindo... 
(escuto aqui.)

Aquele que é formado pela angústia é formado pela possibilidade e só quem for formado pela possibilidade estará formado de acordo com sua infinitude.
                                                                                                          KIERKEGAARD
Por algo que me permeia (nos)  fiz algumas perguntas norteadoras, depois de cutucar Joubert Arrais, Thaís Gonçalves, Angela Sousa.

- O que eu vi que me fez pensar?
- Como é Criar?
- O que é Criar?
- O que se configura no entremeio dos Processos Criativos?

E num dos muitos textos recebidos e lidos encontrei uma citação de Roberto Pereira:
Escrever sobre dança é escrever sobre rastros: partes eleitas pela memória.
Que aqui, deste meu olhar, dentro-fora, transponho meus rastros de um dançar escrito...




E é em palavras que danço.


É assim que estou dizendo para as pessoas que me vem perguntar sobre a finalização do Curso Técnico em Dança; que de final tem a nossa frente um amplo começo. A estrada de danças possíveis está só começando. Feito espiã Russa me coloquei entre os amigos de dança para agora com todo o olhar ‘de fora’ me colocar para dentro. O interessante está sendo a tentativa de acompanhar o processo, a construção que por instantes aparenta ser impalpável, então eu vasculho minúncias, aquilo que foge ao coreógrafo e se reconfigura pertencente à autonomia da obra.

O ‘entre’ se faz presente.

O que é criar?

Para alguns é habitar lugares, o lugar de se perder e o lugar de se estar, assim o é para Aspásia Mariana com o seu trabalho ‘Ma vie’ ; Para outros é uma maneira de dar para o mundo a insujeição ao amor,’ Julieta’, de Júnior Mendes; Diria até que criar é simplesmente uma relação de muitos nomes, ‘Qual é o teu nome?’, Cavalos de Daniel Pizamiglio e Andreia Pires, e quem sabe é um encontro entre pares de abraços , Roberta Bernardo, e pernas preenchidas de toda intersubjetividade feminina, Thatiane Paiva, ou um chão de papéis amassados, comidos, mastigados, cuspidos,’ O pensamento vem da boca’, de Luiz Otávio.

Chego a pensar que criar é tudo isso e aquilo, é uma troca onde não avistamos o final, o desemboque para permanecermos assim ‘ em processo’ contínuo, horizonte de rotas.

Agora nos vem o receio de gerir por conta própria o estudo do corpo, o medo de não saber se sabemos dançar com as próprias pernas, de corpo todo. Foram tempos de delicados aprendizados e de necessários avisos, estamos aqui, fortes, inteiros, unidos, apesar das diferenças. E que diferenças! Uma turma que para se conhecer o tempo foi comprimido, denso, arisco. Mas nos enxergamos, confluídos em identificações, semelhanças, disparidades, respeito e amor. Amamos loucamente uns aos outros em parcelas comedidas de movimentos. Enveredamos as cidades, pulamos obstáculos em praças públicas, dançamos em manifesto, dialogamos com muitos professores sobre a História da Dança (do Ceará e do mundo), fechamos os olhos e corremos sem prenúncios de quedas, entendemos pliês e arriscamos, me coloco no Nós, a dançar par de deux, já outros aperfeiçoaram seus passos.Nos permitimos a uma abertura para se chegar a dança contemporânea, nos infiltramos, questionamos, criticamos, muitas vezes não entendemos, e é para entender?

O que nos fica é essa liberdade de dizer como é minha dança e dançar livremente, sem ideias de um corpo perfeito, sem diminuições de valores. Um corpo que se quer luz, que é vivo, pulsante, inteiro.

Um ano e meio intenso, que fará falta, eu sei; Um ano e meio de Sônia, de Bardawil, de Wilemara, de Eliana Madeira,de Joubert Arrais, de Thaís Gonçalves, deJúlio Lira, de Alex Hermes, de Thereza Rocha, de Paulo Caldas, de Gustavo Ciríaco, de Fernanda Eugênio, enfim, de um monte de gente que se uniu e fez acontecer o É das coisas, o instante-já. Agora é tempo de cada um busca em corpo e pensamento, sem separações, o seu caminho de se dançar para permanecer vívidos e dar a ver ao mundo o que recebeu intensamente, de corpo aberto.

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“Ma Vie”, de Aspásia Mariana.

‘Cada intérprete terá a sua dança, a sua serpentine, nada será idêntico.’ Loie Fuller

Aproximação entre duas mulheres-histórias, de geração distinta, de século distinto e que se assemelham pelo uso das luzes; a luz dança e o corpo se oculta, o corpo oculto, difuso e a luz dançando, beira a poesia essa construção de imagens. Tecnologia, imagem. De uma para a outra a tentativa de se por em cronograma a biografia de eventos parecidos; quando ela revolucionava, eu nem existia. Mas o tempo, esse deus do imprevisível, arquitetou encontros de luzes num solo onde muitos dançam, onde não se separa a correspondência da luz e da sombra, dos feixes luminosos e corpos.

Deem pílulas de serenidade a este corpo pulsante, faça-o vibrar nas correntes elétricas e faça-o ser/ter estado de captação e espera, é possível ver o que está escondido, são coisas delas que o meu olhar se encaixa , acione outro lugar, outras imagens, outra pulsação. O olho que se movimento, meu corpo no escuro, a presença das linhas visíveis a olho nu.

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CATECISMO, de Paulo José.


Nada de se conter, aqui se busca a suspensão, o ápice, o átimo, o gozo subliminar das relações extemporâneas. A sexualidade corre pelas veias, fatídica, e desce pelos olhos. O ato de ver, o voyeurismo, nada mais é que a espera do próximo, este semelhante de corpo a explorar, a escavar, a bifurcar ao preenchimento de espécie.

Sexos contidos, inversão de papéis, a força do coito na pele feminina, neste ser fêmea de seios a mostra em movimento sádico, que puxa não tão levemente o seu dorso para frente. Amarração, o prazer pode se tornar um risco ou a inconstância do incômodo que o motiva, que lhe é pulsão de vida ou de morte.

Paulo José com o CATECISMO provoca o sexual e constrói deslocamentos do pudor/despudor. O aceitável atualiza-se. Os corpos não têm atitudes de expiação, os corpos eles abrem caminhos para o explorável gosto de ser corpo, o gosto do outro, o atrevimento, a invasão, o desassossego de não se preencher sozinho. É transgressor de dentro para fora, uma sociedade diminuta de regras e leis do permitido sussurrando e lhe deixando estar ser comportado por castração íntima. Aos olhos das paredes nada se vê, reacende, anima.

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CAVALOS, de Daniel Pizamiglio e Andreia Pires.


O que permanece? Uma relação cavalar? Um dar nome e narrativas para as coisas?

Uma construção de meias verdades, um espaço onde se questiona o princípio de um ato acabado, irrevogável, assumido. Histórias possíveis de um fim... Trágico?! São duas pessoas que se relacionam com o espaço, com o público, com os papéis, com a música, com os movimentos. Uma crescente de impulsionar as fragilidades e pequenas violências do colar de pérolas, do ostracismo, uma quebra da dimensão do privado, tudo é público, e você constrói ali, você é ali, até se permite ser outro bem ali, tipo o homem que levou nos braços a mulher que torceu o tendão da perna direita e caiu. É tudo assim: estendido até o quase rompimento. A respiração dita uma ordem de esgotamento, a procura lancinante de olhos vendados dá uma atenção peculiar para os passos no espaço, dá uma angústia e quando encontra vem a fragilidade.

Cavalos, construção de dois com muitas imbricações para outros. Uma sensação de ser participante, modificador, construtivo... E no final ainda põe a imagem em ser estática, parada no tempo, feito animação de irrealidades; e tudo termina cantando.


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O PENSAMENTO SE FAZ NA BOCA, de Luiz Otávio.


Mastiga, mastiga, mastiga e tira da boca o processo da questão.

Possibilidades infinitas em meio a papéis amassados, um quê de caótico, que quebra com a movimentação precisa que ele executa entre elas, as informações amassadas. Meio dadaísta a construção, meio desesperador os pés enterrados em papéis leves... Meio respiração debilitada o sentar na cadeira. Meu corpo passeia num espaço poético, que para Luis é um rito de passagem. O medo do que vai ser depois dali. O que acontece quando acaba?

Feito lápis perfurando corpos ele escrevia na pele riscos invisíveis de continuidade. Meio sem querer que a ponta rompesse. Mas está rompendo e a disfonia decifra as peculiaridades do começo que é fim.

08:45 / Postado por Ponto Dança / registros de intercâmbios (0)

Estou num tempo distraidamente dançante.
Sei que... A la Sônia que faço falta... De mim mesma. Mas hoje, confesso, que a fuga fez-se necessária.
Esse lance de MOVA-SE e a dificuldade em encontrar o outro e a mim mesma para ensaiar está um tempo desencontrada.
EPIFANIAS, existem.
Epifania, existe.
E estou no meio de uma delas.
Tomar cuidado para não se perder.
Eu vou!
Vou mesmo!
Nem que seja para ficar olhando.
Desculpas a todos e todas.
M.

turbilhão

22:07 / Postado por Aspásia Mariana / registros de intercâmbios (0)

Pessoas, muita coisa acontecendo, muita mesmo...

em Fortaleza, um momento político importantíssimo na dança cearense e fico honrada de estar sendo, de alguma forma, parte da história nesse momento.
ter em minhas mãos o livro dança possível, da queridíssima Rosa primo e viver o agora é de tirar o sono.

fico orgulhosa de estar perto de pessoas como Andréa Bardawil, Graça Martins, Rosa Primo, Valéria Pinheiro e tantas, tantas outras que me vejo lendo sobre o que é plano nacional de cultura onde está inserido o plano nacional de dança para poder merecer estar nesse lugarzinho que é SIM histórico. político. poético.

estar hoje no teatro das marias junto com o fórum de dança e com o movimento todo teatro é político e planejar a terça feira onde acontecerá a reunião das linguagens para que juntos possamos imobilizar o edital da secult é de uma importância tão singular que tenho vontade de gritar pra todo mundo pra que todos saibam da importância desse momento, pra que se saiba que é possível mudanças sim.
acredito nisso. acredito mesmo!

não haveria e nem poderia acreditar em mudanças se ficasse em casa pensando que ir para as reuniões não fosse resolver alguma coisa que seria sempre mais do mesmo.

lembro de quando começei a dançar, quando andava pelos corredores do T.JA., quando fui numa primeira reunião do fórum, da primeira bienal (quando fiz a primeira aula de sapateado), geeeeeeeente tanta coisa mudou, tanta, tanta...hoje estou num curso técnico em dança...

helloooooowwww...não é simplesmente um curso de dança, é um curso técnico profissionalizente em dança, e olha só o descaso que a Secult vem fazendo?

estamos, se Deus quiser, a um passo para uma graduação em dança aqui em Fortaleza, mas ainda tem muita coisa pra ser trilhada.

e lá vou eu bater na mesma tecla:
acho que todo mundo deveria ler o livro A Dança Possível, as ligações do corpo numa cena. Rosa primo. já chorei inúmeras vezes lendo e relendo citações, entrevistas...ai, ai...não é só mais um livro é o NOSSO livro.

obrigada Rosinha por esse livro, obrigada.

tenho 689787587098098 de coisas ainda pra aprender, mais outros 830912830912 de coisas pra saber que ainda vou ter que aprender sobre aquilo e mesmo depois disso outras coisas vão aparecendo e outras e outras e outras...

estou com trinta anos, mas sabe, quando o bebê deixa de engatinhar e começa a pensar nos seus passos...pois é...pois é...

tá na hora...acorda menino, acorda menina....


aspásia mariana,
super passional.

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amphi no sesc iracema dia 06/outubro. 20 horas.

18:11 / Postado por Aspásia Mariana / registros de intercâmbios (0)

20:38 / Postado por Aspásia Mariana / registros de intercâmbios (0)

Stuart Hall (2003, p.12) “o sujeito previamente vivido como tendo uma identidade unificada e
estável, está se tornando fragmentado, composto não de uma única, mas de várias identidades,
algumas vezes contraditórias ou não resolvidas.”

move em mim

09:49 / Postado por Aspásia Mariana / registros de intercâmbios (0)

As verdades não ditas.

07:51 / Postado por Ponto Dança / registros de intercâmbios (0)



Depois de um isolamento, o termo quem disse foi Joubert Arrais, nada como explodir-se em planos, ideias, fôlegos para encontrar achados, achar encontros.
Durante os dias 07,08,09 e 10 ( ...e todos os outros do ano deste e dos que virão) me dispus, ou consegui, cumprir minha agenda de deveres e prioridades. Sinto-me até mais livre, sem peso, me situando novamente àquela linha de convergência/divergência aos assuntos, às discussões, ao comprometimento à Dança, aos amigos e aos mestres.
Desse exílio particular, que eu nem me dei conta tão longe de mim que estava, sem sair de Fortaleza - Maracanaú tentei ausentar-se de mim, ouvir os batimentos cardíacos, o pulso, atentar-se a esfera individual de um ser comum.
Esse COMUM que me é tão crítico.


adj. vulgar;habitual;corriqueiro; usual
minidicionário da Língua Portuguesa - Silvero Bueno
Acabei me situando na crise da crise. Eu querendo por dias me dissociar da minha busca, o que é impossível. Para onde vou carrego comigo tudo o que faço e vivo o que faço.
Pus no papel o que era eu desde quando me entendo por gente.
Ressalva: Passei a me ver assim a partir do momento em que adentrei no universo dos que teatralizam, dos que dançam, dos quem pensam a Arte, dos que produzem conhecimento, significados. Isso tudo em intersecção.
Dos 15 para baixo encaro como uma fase primeira: das crônicas no jornal escolar, das poesias sobre sexualidade nas carteiras com o intuito de provocar os noturnos( estudantes noturnos), das primeiras confissões de amor, do contato com os livros e o gazear aulas 'chatas' para ficar perto de Sidney Sheldon, Giselda Laporta Nicolelis, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Mario Quintana, enciclopédias... Enfim, a fase comum a todos que aspiram viver. Acredito. Diziam-me que eu era doida da cabeça. Eu odiava... Hoje entendo o porquê e agradeço o elogio.
Meu corpo a partir dos 15 se transformou num campo de experiências atribuídas à pele, aos sentidos.
Andar no centro de olhos vendados, entrar em cena e não saber o que fazer e dançar, falar para muitos acreditando na quarta parede, me esconder nesse falar, chorar dores, intensificar, dramatizar cenas, outros ouvidos, negar os mestres, buscar o meu movimento, o que era eu, como eu crio, interferências, outras linguagens, desespero, a Arte pela Arte, os estudiosos, as conversas paralelas, identificações, medo, pensar no outro, análise crítica, se expor, estar à vista, ver, ...,.
Voltei à tona e dei de cara com uma avaliação.
Só era meu penar pensar: não estou sendo justa, não estou sendo justa, não estou sendo justa.
Com eles, comigo, com o mundo, com a vida.
É necessário falar para que haja movimento, para que haja mudança...
Ouvir Andrea Bardawil ( longe dos puxa-saquismos) é desorientar-se. É ficar calada quando há um turbilhão de palavras em atrito na boca do estômago. É baixar os olhos e por uns lépidos instantes ver-se por dentro, apontar para si e ter certeza de que é com você, é para você, é você!
Portanto, ACORDE! (acordemos!)
Distribua alegrias, expresse-se, fale, se comunique, crie relações, mexa, futrique, experimente.
Para quê o medo do verbo se estou em formação? Se estou entre amigos? Se nos unimos para construir, provocar sentidos?
A semana, a volta me permitiu querer ser de outra maneira.
Não me anular.
Não me esquecer.
Não me diminuir
Somar forças.


Construa uma resistência ao universo do efêmero. Andréa Bardawil


Obrigada para todos que sentiram a minha ausência. Obrigada mesmo. Eu precisava ouvir palavras sinceras.